Artes visuais urbanas efervescendo em Goiânia: conheça o documentário curta-metragem Gastrite (2018, 20 min)

A CASA DE VIDRO

GASTRITE

“Imagine uma cidade em que o grafite não é ilegal, uma cidade em que qualquer um pode desenhar onde quiser. Onde cada rua seja inundada de milhões de cores e frases curtas. Onde esperar no ponto de ônibus não seja uma coisa chata. Uma cidade que pareça uma festa para a qual todos foram convidados, não apenas as autoridades e os figurões dos grandes empreendimentos. Imagine uma cidade como essa e não encoste na parede – a tinta está fresca.”Banksy

O documentário “Gastrite” é um curta-metragem idealizado e dirigido por Hugo Brandão. Conta com a colaboração de Eduardo Carli de Moraes  / A Casa de Vidro (Assistência de Direção e Entrevistador) e Débora Resendes Rodrigues / A Toca Coletivo (Produtora Executiva). Este projeto foi contemplado pelo Fundo de Arte e Cultura 2016, com apoio da Seduce e Governo de Goiás.

O filme “Gastrite” tem a…

Ver o post original 873 mais palavras

Anúncios

AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES – Documentário curta-metragem aborda a arte de resistência e os agentes culturais transformadores no cenário de Goiânia em 2018 (Um filme de Eduardo Carli de Moraes, 25 min)

A CASA DE VIDRO

AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES

Novo documentário curta-metragem aborda a Arte de Resistência e dá voz a agentes culturais transformadores que estão em ação no cenário de Goiânia em 2018

Um documentário de Eduardo Carli de Moraes – 25 min

SINOPSE – Em um lugar “onde assassino tem o nome na avenida”, como canta Adriel Vinícius, há um microcosmo social que não se acomoda nem se conforma com o status quo indignante que hoje nos assola. O documentário curta-metragem Afinando o Coro dos Descontentes deseja amplificar a voz dos artistas goianienses que estão em franco levante contra as injustiças sociais e as violências estruturais conectadas ao reinado de Anhangueras, Marconis, Cachoeiras e Caiados, dentre outros podres poderosos que tiranizam Goiás.

Por 25 minutos, mergulhe nesta movimentação contra-cultural e subversiva, onde efervescem as obras e práticas de “muita gente bacana, com antenas ligadas no que está acontecendo aqui e agora”, como…

Ver o post original 1.007 mais palavras

o curioso caso dos seres que habitam bolhas

pretopoetapreto

o curioso caso dos seres que habitam bolhas
na encolha de seus próprios universos
consomem tempo
presos à prazeres efêmeros
observam o mundo por periscópios
eletromagnéticos
emitem julgamentos
mas já não dialogam
se jogam ao fictício incólumes
à procura de absurdo qualquer
que lhes tire do tédio
mas já não encontram remédio
no grande emaranhado de estímulos
que como grãos de areia
se convertem em deserto
e lentamente lhes engolem a existência

curioso é o caso dos seres que do alto de suas bolhas
observam cenários
do mundo inteiro
mas permanecem por inteiro
profundamente solitários…

-vh

Ver o post original

o curioso caso dos seres que habitam bolhas

o curioso caso dos seres que habitam bolhas
na encolha de seus próprios universos
consomem tempo
presos à prazeres efêmeros
observam o mundo por periscópios
eletromagnéticos
emitem julgamentos
mas já não dialogam
se jogam ao fictício incólumes
à procura de absurdo qualquer
que lhes tire do tédio
mas já não encontram remédio
no grande emaranhado de estímulos
que como grãos de areia
se convertem em deserto
e lentamente lhes engolem a existência

curioso é o caso dos seres que do alto de suas bolhas
observam cenários
do mundo inteiro
mas permanecem por inteiro
profundamente solitários…

-vh

sento me só
acendo um cigarro
miro o cartaz que me diz
“a universidade é sua casa”
logo eu, que nunca quis casamento 
fora a liberdade de ser só
ainda que acompanhado
logo eu, que nunca me senti assim
tão desertado do mundo, pródigo
decerto sou só
mais um andarilho
entregue ao degredo
de não existir

mas não desisti
nessa cadeira estou só
para além do indivíduo que quiseram-me
para além do emaranhado que me chega aos ouvidos
e traduz os moldes com que o positivismo
aliado às técnicas de adestramento do behaviorismo capitalista
exonera o projeto de homem
vigente já na virada do décimo quinto século
e relembra ao complexo iluminista
a herança animal dos reles mortais
com manias de transcendência
(vulgarmente taxados de homens)
junto ao mecanicismo que por fim destroça
os resquícios derradeiros
desse cógito lógico-metafísico
e o que resta à consciência
que concerne um sentido íntimo
ao mundo que lhe cerca
não é mais que a própria finitude
como consciência que lhe cerca da própria ideia da morte
do iminente niilismo, ou deveria dizer do imanente
sepultamento de todos esses valores
que ao valerem-se do universalismo
caíram uma vez em descrédito
e fica certo que não valiam nada

são meras ilusões de linguagem
fadadas ao perecimento do espírito
fadado como tal ao próprio perecimento
fadadas ao descrédito da pós-modernidade
pois já não há simulacros que nos sirvam de muletas
mas há os dissimulados que as comercializam
há o lucro dos que oprimem
e talvez a revolta dos que seguem calados
pois depois que se sabe
talvez o único modo possível de sobrevivência
seja ser cético
defender-se com ironia e cinismo
escondendo no fundo do peito a consciência da covardia

é hamlet que hesita
aquiles apenas age
mas nossos heróis são só chiste
negação em remakes longa-metragem
e o que nos resta é isso
sorrir de nossa própria desgraça
sorrir de nosso apropriado descrédito
buscar no entretenimento algo qualquer que nos distraia
da miséria de nossa própria existência
arrastando-nos pela vida pelo máximo de tempo possível
tentando-nos convencer de valia a pena
e agora falo do peso do álcool em minha própria caneta
minha pena só terá valido se for gasta
e a vida só terá valido a pena se for vivida
porque a vida, a vida mesmo
é um imenso paradoxo
que não faz sentido pois a falta iguala-se ao nada
e decerto, o fado de nosso tempo
é perceber que o nada que nos concerne
é ao mesmo tempo
tudo o que temos…

-vh

beba dessa água

se apaixone

não fume como o cão

e não se apequene

mas também não se aceite

como matéria inteiramente acabada

a vida é breve e é gigantesca

e seus descaminhos

se servem da mudança

 

-vh

O último cigarro


As luzes tremulam no horizonte. O barulho dos automóveis mantém o imóvel observador preso aos próprios desígnios. Refém de seus próprios demônios. Anestesiado, como quando tudo vai mal. Mas por ora, entorpecido, como há de ser. Se a paixão distorce a realidade do ser incompreendido e o repõe, pequenino, frente à indecifráveis apelos de que o amanhã lhe seja um pouco mais suportável. Embora, há muito não mágico, como o quisera crer na aurora de seus dias. E o que quisera crer já não mais lhe importaria, se o presente não lhe fosse constantemente assaltado por aspirações futuras. Se claramente lhe saltassem aos olhos todas as oportunidades, bruscamente desperdiçadas. Se ao menos ele percebesse que jamais foi, ao menos por um resquício qualquer de tempo, sequer o reflexo indefinido do pouco que agora lhe sobra.

Mas ele padece do fado intrínseco à natureza dos pobres sonhadores a que a vida desseca.

São mais de quatro e ele não consegue dormir. A cidade dorme, já não há carros, mas as luzes distantes ainda tremulam. Tremulam-lhe os nervos metafísicos. Lá dentro alguém tosse e ele termina trêmulo o último cigarro. Já não há tempo para tantos rodeios. Não há tempo para meros devaneios tolos, como queira. Ainda trêmulo, certamente, ele pensa que essa ansiedade um dia ainda o há de matar. E pensa nisso enquanto mira o chão, sete andares abaixo. E permanece nisso enquanto mira o céu, incontáveis metros acima. E pensa nisso enquanto mira o inferno de incontáveis andares e metros da própria consciência. Um labirinto, tão profundo e longínquo que só o alcança a mão que porta a caneta com a qual rabisca alguns versos, no escuro:

“São mais de quatro, a cidade dorme, eu não durmo…

E gostaria de saber como seria voar

Para além desse inferno

Sete andares abaixo, incontáveis metros acima…”

É certo que por vezes o abismo nos chama e há quem diga que se o mirares detidamente e sem pressa, poderás até vislumbrar um sorriso. E como se de algum modo em meio a tudo isso ele pudesse, como uma espécie de narrador distante, vislumbrar toda a cena,  finda:

“É certo que o abismo me chama

É certo que o mundo é sujo

e apesar de tudo, eu ainda fumei

o último cigarro…”

Já sem par nesse mundo caduco só lhe resta sobrevoar o desconhecido, para fora de si mesmo.

-vh